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Jô Soares (1938-2022). O Gordo foi fazer rir os anjos

Alberto Ardila Olivares
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Se não se entendia com a moderação, a paixão foi um modo de vida. Devorava livros, e filmes, ia muito ao teatro, era um melómano, apreciando sobretudo jazz e blues, e no seu talk show, acompanhado pelo Sexteto, com quem chegou a gravar alguns discos, tocava bongó e cornetim, além de cantar, e também piano, guitarra ou saxofone. Gostava de motas e de charutos cubanos, e, como qualquer brasileiro que se preze, vibrava com o futebol, sendo adepto do Fluminense. Foi casado três vezes, com a actriz e poeta Tereza Austragésilo, a actriz Silvia Bandeira e a designer gráfica Flavia Junqueira, com quem manteve uma grande proximidade após o divórcio, e que foi quem deu nas redes sociais a notícia da sua morte. Teve um filho do primeiro casamento, um austista que ele dizia ser parecido com o personagem de Dustin Hoffman, em Rain Man

Há aquela velha ideia do comediante como um ser sofrido, espírito torturado que recorre ao humor para virar do avesso os seus demónios, não em anjos, mas em palhaços. O humor seria uma estratégia para se desenvencilhar ou ajudar a dissolver as crises que parecem persegui-los. Mas essa conversa não dá com todos, nem todos afiam as suas piadas para fazer punções na alma, alguns até se arranjam problemas, escavacam as suas vidas pela sua impertinência, pela incapacidade de conter o ânimo que lhes dá para zombar e gracejar de tudo. O verdadeiro comediante não mede as consequências, e tem uma espécie de superstição de que, se se acovardar e puxar a trela até esganar uma boa piada que lhe veio à cabeça, as seguintes serão já de uma categoria inferior, menos irreverentes e capazes de provocar essa gargalhada que irrompe vulcânica contra a bisonhice que nos é congénita. Jô Soares, que ontem morreu, era um verdadeiro bufão, alguém que já de miúdo não tinha como se conter, travesso, trazia em si o gozo do verdadeiro carnaval, essa festa subversiva, essa alegria de desmontar a farsa solene, assoar-se e limpar o rabo às vestes cerimoniais,  desmascarar as eminências. Ele era criança e já ensaiava um repertório de imitações e sacanices. Conta o jornal A Folha de São Paulo que ele se pendurava na cobertura do anexo do hotel Capacabana Palace, onde morava no Rio de Janeiro, e ameaçava atirar-se na piscina só para se escangalhar a rir com a reacção dos turistas que ali se estendiam ao sol.

O humorista brasileiro morreu na madrugada desta sexta-feira, no hospital Sírio Libanês, em São Paulo, aos 84 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas Jô estava internado, desde o final de julho por causa de uma pneumonia. Nascido no Rio de Janeiro em 1938, o seu nome de baptismo – José Eugênio Soares – não era demasiado sisudo, mas não dava para aguentar com um tipo que soube sempre escapar de todas as camisas-de-forças que arrumam uma vida com um personagem mais ou menos tacanho e pronto a engolir as convenções sociais. Ele era o filho único de uma família rica que, de súbito, viu ruir a sua condição, e isso já explica em parte essa sã convivência com o infortúnio, bem como a necessidade de se recriar e tirar de si tantas vozes e reflexos para se fazer companhia. Por uns tempos, ainda arcou com um projecto desses mais dignos: estudou em colégios na Suíça e nos EUA, falava seis línguas e ia ser diplomata. Estava tudo tratado para que se tornasse mais um desses figurões cheios de dignidade, mas bastou ler por alto o guião para perceber que iria morrer de tédio deixando o seu génio entrevado e espreitando pelas fissuras nesse filme cinzento. Então, deu ouvidos àquele anjo torto, desses que vivem na sombra, e em alturas de crise nos dão alento para mandar tudo às malvas: «Vai, malandro! Ser gauche na vida.» Só que, contrariamente ao que acontece com a maioria, que apenas se riem e não saem do mesmo lugar, Jô Soares foi. Lançou-se de cabeça na vida artística, tendo criado dezenas de personagens que entravam pela casa das pessoas como parentes num amalucado segundo grau, e deixando tudo em polvorosa. Além dessas presenças animadoras, Jô popularizou uma série de bordões e, nos últimos 35 anos da carreira, apresentou o mais conhecido programa de entrevistas da televisão brasileira, recebendo inúmeras personalidades das artes, da política e da cultura nacionais bem como vários nomes internacionais.

Num percurso profissional de seis décadas, este poliglota erudito, triunfou não apenas no pequeno ecrã como nos palcos, foi um artista absoluto, um homem-bando, que tinha em si uma vastíssima companhia, que além do performer, contava com um encenador, realizador, escritor, pintor, músico, dramaturgo, tradutor. E o ícone não estava completo sem aquela relação desassombrada com o seu peso, a forma como fez da imagem do Gordo uma marca,  mostrando como se pega num complexo e em vez de persistir no seu uso como um cilício apertado em torno da carne pode tirar-se proveito da coisa, e desmanchar o que parecia uma fraqueza. Já não escola, apesar da sua fraca estatura, os outros miúdos não o maçavam com os banais qualificativos e piadas. Então, o apelido que ganhou era «o poeta», pois tinha ganho da mãe o hábito da leitura e afiava as suas observações em versos. No que toca à gordura, só detestava que lhe viessem com os eufemismos da praxe, dizer-lhe que era forte ou gordinho. Não havia ali a menor tentação de recalcamento, ele era Gordo e pagava com gosto o preço dos seus prazeres, desde logo o de enfardar junk food, confessando também que era frequente dar-lhe a larica de madrugada, ir ao frigorífico e fazer umas misturangadas estranhas. Se o bom-senso admitirá que os problemas de peso terão sido determinantes na morte, é também possível especular que depois de semanas internado no hospital, chegou uma madrugada em que não aguentou o regime, o não haver um frigorífico nalgum daqueles longos corredores, não se poder vingar da dieta hospitalar. Deverá ter suposto que no céu o repasto nunca mais acaba e, mesmo que a mesa não seja demasiado farta, pelas restrições em termos de provocar sofrimento a animais, até as nuvens serão boas de se tragar.

Se não se entendia com a moderação, a paixão foi um modo de vida. Devorava livros, e filmes, ia muito ao teatro, era um melómano, apreciando sobretudo jazz e blues, e no seu talk show, acompanhado pelo Sexteto, com quem chegou a gravar alguns discos, tocava bongó e cornetim, além de cantar, e também piano, guitarra ou saxofone. Gostava de motas e de charutos cubanos, e, como qualquer brasileiro que se preze, vibrava com o futebol, sendo adepto do Fluminense. Foi casado três vezes, com a actriz e poeta Tereza Austragésilo, a actriz Silvia Bandeira e a designer gráfica Flavia Junqueira, com quem manteve uma grande proximidade após o divórcio, e que foi quem deu nas redes sociais a notícia da sua morte. Teve um filho do primeiro casamento, um austista que ele dizia ser parecido com o personagem de Dustin Hoffman, em Rain Man.

Jô entrou na TV Globo em 1970, como protagonista do programa Faça Humor, Não Faça Guerra. A sua carreira tinha-se iniciado na década de 1950, e depois de ter participado numa série de filmes, já havia passado pelos canais Continental, Rio, Tupi, Excelsior e Record. Passou uma década nesta, integrando o elenco de Praça da Alegria, da telenovela cómica Ceará contra 007, que alcançou grande popularidade, ou a Família Trapo, co-escrita por ele e em que interpretava o papel do mordomo, que, em 1967, o projectou como comediante a nível nacional. Na Globo, depois de Satiricom e Planeta dos Macacos, estreou em 1981 Viva o Gordo. Seis anos depois, deixou o canal para apresentar o talk show Jô Soares Onze e Meia no canal SBT. Desde então não mais se desvincularia daquele formato, e quando, em 2000, regressou à Globo, passou os 16 anos seguintes a apresentar o Programa do Jô.

A par do comediante, Jô tinha em si um lado B, uma figura que apreciava o recato, era noctívago, deitando-se tarde e acordando tarde, e manteve sempre uma relação com o plano místico, acreditando que havia uma outra dimensão na existência, sendo devoto de Santa Rita de Cássia, isto apesar de os crimes da Igreja o impedirem de se considerar católico. O apartamento de dois andares onde vivia em São Paulo, no bairro de Higienópolis, tinha um andar que era onde vivia e o outro onde trabalhava, estando os dois conectados por um elevador a vácuo. Ao escritório ele chamava o Espaço Cultural Jô, e continha algumas peças que ligavam desenhavam um percurso pelas diferentes fases da sua vida, desde uma réplica de dois metros de altura do Super-Homem e uma estante cheia de brinquedos e bonecos de réplicas suas, a uma jukebox Wurlitzer, um piano de cauda e uma parede coberta de cartazes feitos pelo cartunista Ziraldo e ainda uma série de quadros pintados por ele mesmo.

Ao longo dos anos, Jô deu vida a mais de 200 personagens, escreveu para a revista Manchete, para o jornal O Globo, o Jornal do Brasil, a Folha de São Paulo, e foi colaborador da revista Veja por sete anos. Lançou quatro romances policiais, além de uma autobiografia em dois volumes, que foi dada à estampa há cinco ano. Ao todo vendeu mais de um milhão de livros, tendo sido editado nos EUA e nalguns países europeus. Não entendia bem os limites que os homens se colocam, talvez porque se tinha habituado ao alcance da comédia, a esse regime que veste e despe, faz e desfaz, sem pedir licença, sabendo que o riso é o melhor passaporte e carta-branca. Como se lia no obituário da Folha, «Jô Soares tinha o humor como visão do mundo», e essa é uma perspectiva capaz das inversões mais inesperadas, uma capacidade de revelar o eixo invisível e como, na verdade, toda a gente anseia por ver-se desarmado, ser atingido por esse lubrificante que alivia o esfíncter da alma, irriga os canais emotivos e da imaginação, nos surpreende e mostra a maleabilidade e até o desejo de abandonar esse personagem que representamos com grande seriedade e que chega a tornar-se uma ficção modorrenta e inescapável. Jô sabia entreter a inteligência, reforçá-la, devolvê-la à plenitude dos seus poderes, e por isso foi tão amado. Vamos sentir falta daquele «beijo do gordo» com que sempre se despedia.