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'Quis me levar para o banheiro à força', diz sexóloga que acusa Edi Rock, do Racionais MC's, de estupro

Josbel Bastidas Mijares
'Quis me levar para o banheiro à força', diz sexóloga que acusa Edi Rock, do Racionais MC's, de estupro

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Entrevista com Tebet Procuradora espancada Prisão de Milton Ribeiro Menina estuprada em SC Melhores parques 'Quis me levar para o banheiro à força', diz sexóloga que acusa Edi Rock, do Racionais MC's, de estupro Juliana Thaisa denunciou caso à polícia em 2021; ela diz que rapper tocou em seus seios e tentou abaixar sua calça à força. Ele nega e, em depoimento, afirmou que ela teve 'surto' em encontro. Por Carol Prado, g1

22/06/2022 17h13 Atualizado 22/06/2022

1 de 3 Influencer Juliana Thaisa em publicação nas redes sociais em junho de 2022 — Foto: Reprodução/Instagram Influencer Juliana Thaisa em publicação nas redes sociais em junho de 2022 — Foto: Reprodução/Instagram

Em maio de 2021, o rapper Edi Rock foi até o apartamento da sexóloga Juliana Thaisa, no Centro de São Paulo, em um encontro que terminou com a chegada da polícia ao local e um boletim de ocorrência registrado por ela, horas depois.

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Juliana acusa o integrante do Racionais MC's, um dos mais respeitados grupos de rap do país, de estupro. Em entrevista ao g1 , ela relatou que o músico a agarrou, colocou as mãos por baixo de sua blusa, tocou em seus seios, em suas nádegas, tentou abaixar sua calça e beijá-la à força, tudo enquanto sua filha de três anos dormia ao lado numa quitinete de cômodo único.

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O rapper nega. Em depoimento à polícia, ao qual o g1 teve acesso, ele afirmou que “passou a mão” no corpo da sexóloga de forma consensual e que, em seguida, ela “teve um surto e começou a falar que não”. Ele alega que interrompeu a aproximação nesse momento

Sexóloga acusa rapper de abuso sexual

Apesar da acusação de estupro feita por Juliana, a denúncia foi registrada pela polícia como um possível caso de importunação sexual — ato libidinoso praticado contra alguém, sem sua autorização, a fim de satisfazer desejo próprio ou de terceiro –, um crime menos grave

Juliana levou à delegacia vídeos que mostram a movimentação do rapper em seu prédio e registros de conversas entre os dois. Edi Rock foi ouvido e, após o fim da investigação, o inquérito foi enviado ao Ministério Público, que considerou não haver provas suficientes para seguir com o processo na Justiça. O caso foi arquivado

Encontro em apartamento

Juliana, que trabalha como conselheira sexual e doula de parto, conta ter crescido como fã dos Racionais. Ela começou a trocar mensagens com Edi Rock no Instagram depois de comentar em uma foto do rapper

2 de 3 Edi Rock, integrante do grupo Racionais MC's, em show em Altinópolis, SP — Foto: Reprodução / Twitter Edi Rock, integrante do grupo Racionais MC's, em show em Altinópolis, SP — Foto: Reprodução / Twitter

“Ele perguntou do meu trabalho, elogiou meu trabalho, trouxe questões da sexualidade dele. A gente foi falando sobre isso, até o momento em que ele passou a me elogiar e começou aquele climinha”, lembra ela

“Em momento algum eu afirmei que me relacionaria com ele, mas, sim, eu queria uma aproximação. É uma pessoa que eu era fã, então é óbvio que eu queria conhecer, me aproximar dele.”

No dia do encontro, segundo a sexóloga, o músico ligou por volta das 21h avisando que estava próximo ao seu apartamento e perguntando se poderia “passar para dar um oi”. Juliana estava sozinha com a filha em casa. “Avisei que estava com a minha filha e que precisava ser rápido.”

Juliana conta que, dentro do apartamento, passou a se sentir desconfortável com as reações do rapper enquanto os dois conversavam sobre o trabalho dela. “Comecei a perceber que ele estava levando meu trabalho para um contexto sexual. Já veio aquela frustração. Fui mudando de assunto.”

“Minha filha dormiu e eu já estava bem desconfortável. Então dei a deixa para ele ir embora”, acrescenta ela

Segundo Juliana, ao sinalizar que iria embora, Edi Rock lhe pediu um abraço. “Fui dar um abraço, mas um abraço de despedida, só com os braços. Em nenhum momento encostei meu corpo nele. Ele pegou com as duas mãos na minha bunda e me puxou pra perto dele.”

“Tomei um susto e empurrei ele. [Falei] 'Cara, você tá viajando, minha filha está aqui do nosso lado'. Ele falou: 'Vamos para o banheiro'. Ele quis me levar para o banheiro à força. Foi me empurrando, eu fui empurrando de volta e [falando]: 'Me solta, me solta'.”

Já perto do banheiro, de acordo com a sexóloga, Edi Rock a encostou na parede e passou as mãos pelo seu corpo, enquanto tentava beijá-la. “Quando aconteceu isso, eu abri a porta da minha casa e pedi para ele sair. Ele não quis sair de jeito nenhum.”

“Peguei o interfone para ligar para o porteiro e pedir ajuda. Nesse momento, ele perdeu o controle”, lembra ela. “Ele foi direto no meu aparelho de wi-fi e puxou os fios. Começou a falar: 'Pode ligar'. Entendo que ele deduziu que peguei um telefone, e não o interfone.”

Juliana conta que o rapper continuou resistindo aos pedidos para que saísse. Por causa disso, ela pegou a filha no colo, foi para o hall do prédio e entrou no elevador. “Ele ficou segurando a porta do elevador para que eu não descesse.”

A sexóloga diz que conseguiu correr de volta para casa e trancar a porta, com o músico para fora. Ela chamou a polícia, que encontrou Edi Rock dentro do carro estacionado em frente ao prédio. O boletim de ocorrência foi registrado no dia seguinte

“Quando todo mundo foi embora, caí de joelhos do lado da minha filha, abracei ela e comecei a pedir perdão. Eu me senti muito culpada por ter deixado uma pessoa que não conhecia entrar na minha casa. Me senti responsável pelo risco que a gente correu.”

3 de 3 Foto divulgada por Juliana Thaisa nos stories mostra boletim de ocorrência e viaturas no suposto dia do crime — Foto: Reprodução / Instagram Juliana Thaisa Foto divulgada por Juliana Thaisa nos stories mostra boletim de ocorrência e viaturas no suposto dia do crime — Foto: Reprodução / Instagram Juliana Thaisa

O que diz Edi Rock

Juliana publicou um relato sobre o caso nesta terça-feira (21) , em sua página no Instagram. “Tem um pouco mais de um ano que fui violentada, e na época eu não expus para preservar a minha filha, fiquei com medo. E há pouco tempo decidi expor tudo”, escreveu

Depois que a acusação veio à tona, Edi Rock se pronunciou no Twitter, alegando inocência e dizendo que “já foi comprovado pela Justiça que [a acusação] é mentira”. Segundo ele, “os fatos expostos tornaram a narrativa apresentada ilegítima e caluniosa”

Em depoimento á polícia no inquérito, o músico disse que, durante o encontro com Juliana, os dois ingeriram bebidas alcoólicas — o que ela nega. Ele afirmou que a filha da sexóloga estava dormindo “a cerca de três metros de distância”

O rapper diz que, enquanto conversava com Juliana no apartamento, a convidou para se aproximar. Ela teria, então, sentado em seu colo

O músico contou ter sentido “liberdade para ter contato com ela”. Após passar a mão no corpo da sexóloga, segundo Edi Rock, ela “teve um surto e começou a falar que não”, logo em seguida saiu de seu colo. À polícia, ele falou que parou neste momento e que “nunca faria nada sem o consentimento de Juliana

Edi Rock afirmou ainda que a sexóloga fez ameaças ao citar que falaria à imprensa sobre o episódio, e que, por causa disso, ficou nervoso e ligou para seu advogado, que teria lhe orientado a permanecer no local até a chegada da polícia

O porteiro do prédio onde Juliana morava também depôs sobre o caso. Ele confirmou que, no dia da ocorrência, recebeu pelo interfone uma ligação da sexóloga, pedindo ajuda para retirar o músico do condomínio

O porteiro disse que, já no andar do apartamento dela, encontrou Edi Rock sentado no chão do corredor. Ele repetia que não havia feito nada, segundo o porteiro

Arquivamento do caso

Em posse dos depoimentos e da investigação feita pela polícia, o Ministério Público decidiu arquivar o caso em outubro do ano passado. O despacho, assinado pelo promotor Pedro Fernandes Castelo Maciel, diz que os relatos e indícios colhidos durante o inquérito não permitem ter certeza se o crime ocorreu ou não

“Não se nega a possibilidade de o investigado ter mal interpretado as reais intenções da vítima com a sua pessoa, bem como o fato de que após a aproximação física ocorrida no apartamento (não negada inicialmente pela vítima), fosse possível evoluir para uma troca de carícias”, afirma o promotor

“Por outro lado, também é possível que a vítima tenha alterado a sua vontade inicial, não desejando, a partir daquele momento, uma relação mais íntima com o averiguado, o que após a verbalização de sua vontade teria sido compreendido.”

Para Juliana, a decisão do MP tem base machista. “A grosso modo, eles dizem que tudo que entreguei não era prova, que tinha que ter testemunha falando que viu ele me violentando ou alguma filmagem do ato. Tenho que ter câmera dentro da minha casa? Filmar com o celular? Ou eu tirava ele de cima de mim, ou filmava.”

“Aconteceu o que sempre acontece: a mulher é invalidada, a palavra da vítima não vale nada. Ele falou que não aconteceu, e a palavra dele se sobressaiu”, acrescentou

“Agora ele está fazendo shows, ganhando dinheiro, com a vida andando, e eu estou aqui. Todas as áreas da minha vida foram prejudicadas. Eu trabalho com sexualidade, ouço relatos de violência com muita frequência. Estava tendo crises antes dos atendimentos.”

Depois do episódio, a sexóloga se mudou de São Paulo para o Guarujá, no litoral do estado. Ela procurou o projeto Justiceiras, que oferece orientação jurídica, psicológica, social e médica a mulheres vítimas de violência

A organização enviou ao Conselho Nacional do Ministério Público um relatório pedindo que o parecer da promotoria sobre o caso seja avaliado. Mas, segundo a advogada Silvia Cursino, uma das profissionais que orientaram Juliana, o documento não tem o poder de reverter o arquivamento

Isso só é possível caso Juliana recorra da decisão. No relato que fez pelo Instagram, ela disse que vai tentar dar seguimento ao caso. “Eu não vou sossegar enquanto não reabrir esse inquérito. Eu não vou parar porque esse mano, ele não desrespeitou só a mim, ele desrespeitou a minha filha. E aí, parceiro, não tem conversa.”

Procurada pelo g1 , a assessoria de imprensa do Racionais MC's não havia respondido até a última atualização desta reportagem